Sobre o blog

Esse blog foi criado há muito tempo e, durante esse percurso houve muitas modificações quanto à sua finalidade. De todo modo, o maior objetivo hoje é refletir um pouco sobre a vida, a sociedade e o amor. Às vezes em prosa, às vezes em verso. Traduz o que me marca, o que sinto, o que penso ou o que desejo. Sejam bem vindos. Fiquem à vontade.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Jardim da Nossa Alma





É o último dia do ano de trabalho.

Hoje o jardim, que está sempre a deixar a recepção do prédio mais acolhedora, nos recebeu todo florido.

O coração é afagado pela natureza divina que fala a cada um de nós com a delicadeza que só o Pai faz.

Gratidão à simplicidade do cuidador desse jardim, que está sempre disposto a responder nosso bom dia timidamente, mas certeiro, cordial ... simples ... necessário!

O recipiente das plantas que florescem são velhos baldes de tinta reaproveitados.

Talvez ele, nosso jardineiro de Deus, não saiba da grandiosidade que é esse cuidado diário.

Então, nesse último dia de trabalho, eu agradeço em nome de cada transeunte trabalhador dessas duas Secretarias pelo amor dedicado à natureza ... às pequenas e tão grandiosas flores! Gratidão por cuidar do jardim do nosso trabalho.

Esse amor, esse cuidado reverbera no coração de cada um de nós ... mesmo daqueles que não sabem ....

Muito obrigada, querido jardineiro!!!!

SEPOG E SME. 30/12/2022

domingo, 10 de julho de 2022

Reflete.


Anseios de novidades
Não querer criar expectativas já é uma expectativa.
Nosso coração maroto


Serenidade. Não veio.
Novidade. Muita.
Cuidado. De leve.
Certeza. Nenhuma.

Pequeno e Ligeiro

O movimento da noite recebe as crianças na praça
Tudo iluminado
O clima agradável das árvores sugere uma brincadeira
Sugere um vai e vem alegre
Um menino fortinho
Ligeiro e pequenino
Joga o futebol
Ora pega a bola no gol
Ora chuta pro gol
Não parou um minuto
Olhinhos arregalados
Felicidade da inocência que faz o que gosta
Brincando 
Nem ouve o que se diz
Larga a bola
E sai andando
Que menino feliz!

domingo, 30 de junho de 2019



De repente faz tanto sentido parar para olhar uma poetisa cantora
Um dia Elza 
Outro dia Maria
Soares e depois Bethania
Divas 
De repente ... ou não ... numa transição talvez ... o coração vai compreendendo a poesia que antes era apenas ritmo ... era ritmo nesse meu coração menino que só queria dançar ... que só queria pular ... sem silêncio aqui dentro, quase nunca ouvia a mensagem por entre a doçura das notas musicais ... um sorriso que culminava em gargalhada constante ... quando, por vezes, esse riso era desespero ... sentimentos que eu nem fazia ideia que sentia ... emoções que nem sabia que não sabia ... 
De repente, não mais que de repente ... olho pra tão lá dentro ... e fico aqui desvendando esse eu que estava tão submerso ... 
Que momento maravilhoso em mim mesma: quando finalmente, de fora pra dentro, venho descobrindo e decifrando um enigma essencial. 
Eu sou o que sou. 
E me transmudo. 
E me transpacto.
E me refaço. 
Mergulho em mim mesma!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Resultado de imagem para gabriela mistral o prazer de servir



O PRAZER DE SERVIR

                                     
(autora: Gabriela Mistral) *
Tradução de Fernandes Soares

 

Toda a natureza é um serviço.

Serve a nuvem, serve o vento, serve a chuva.

Onde haja uma árvore para plantar, plante-a você;

Onde haja um erro para corrigir, corrija-o você;

Onde haja um trabalho e todos se esquivam, aceite-o você.

Seja o que remove a pedra do caminho,

O ódio entre os corações e as dificuldades do problema.

Há a alegria de ser puro e a de ser justo;

mas há, sobretudo, a maravilhosa, a imensa alegria de servir.

Que triste seria o mundo, se tudo se encontrasse feito,

se não existisse uma roseira para plantar, uma obra a se iniciar!

Não o chamem unicamente os trabalhos fáceis.

É muito mais belo fazer aquilo que os outros recusam.

Mas não caia no erro de que somente há mérito

nos grandes trabalhos;

há pequenos serviços que são bons serviços:

adornar uma mesa, arrumar seus livros, pentear uma criança.

Aquele é o que critica; este é o que destrói; seja você o que serve.

O servir não é faina de seres inferiores,

Deus que dá os frutos e a luz, serve.

Seu nome é: AQUELE QUE SERVE!

Ele tem os olhos fixos em nossas mãos

e nos pergunta cada dia: SERVIU HOJE? A QUEM?

À ARVORE? A SEU IRMÃO? À SUA MÃE?

(*) Gabriela Mistral, poeta chilena, premio Nobel de Literatura de 1945


Descobri essa poetisa por meio da professora Lucia Helena Galvão, da Escola de Filosofia Nova Acrópole. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Eu sei, mas não devia




Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Nasceu a 26 Setembro 1937
(Asmara, Eritreia)
Marina Colasanti é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia.Viveu sua infância na Líbia e então voltou à Itália onde viveu onze anos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Cântico Negro


Poema Cântico Negro de José Régio


Cântico Negro é um poesia de José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira. Foi publicado em 1926 no seu primeiro livro chamado Poemas de Deus e do Diabo. O "poema-manifesto" contém algumas premissas modernistas que ditaram a obra poética de José Régio e da geração presentista.


Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Lindamente recitado por Maria Bethânia em seu álbum "Cartas de Amor" (2013)