Sobre o blog

Esse blog foi criado há muito tempo e, durante esse percurso houve muitas modificações quanto à sua finalidade. De todo modo, o maior objetivo hoje é refletir um pouco sobre a vida, a sociedade e o amor. Às vezes em prosa, às vezes em verso. Traduz o que me marca, o que sinto, o que penso ou o que desejo. Sejam bem vindos. Fiquem à vontade.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Eu sei, mas não devia




Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Nasceu a 26 Setembro 1937
(Asmara, Eritreia)
Marina Colasanti é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia.Viveu sua infância na Líbia e então voltou à Itália onde viveu onze anos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Cântico Negro


Poema Cântico Negro de José Régio


Cântico Negro é um poesia de José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira. Foi publicado em 1926 no seu primeiro livro chamado Poemas de Deus e do Diabo. O "poema-manifesto" contém algumas premissas modernistas que ditaram a obra poética de José Régio e da geração presentista.


Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Lindamente recitado por Maria Bethânia em seu álbum "Cartas de Amor" (2013)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018


Mar querido mar

Tudo tem seu ônus e seu bônus.

Adoro mar, mas a areia que me recobre o corpo me irrita.
E nos deparamos mais uma vez com os dilemas do cotidiano:

um lado bom e o outro nem tanto.
Outro domingo de praia, sol, muito, mas muito vento mesmo, e meu querido mar.

Nada como um belo mergulho.

O sal que nos purifica.

Esse barulho do vai e vem da força do universo nas ondas bem à minha frente aqui e agora levam a trazem nossos pensamentos.

Escrevo com um olho na tela e outro na água.

Hoje o céu está especialmente azul.

As nuvens suaves pintam um tom de tranquilidade.

E a areia revirada pelo vento, que nem deixa passar o protetor solar direito, não nos deixa esquecer que tudo tem um preço.

Sobre uma ventania, mal humor e sublimação em  16/12/2018.



Translúcido mar


Tuas ondas límpidas
Brandas ondas que nos banham
Tua carícia quente
Embalou nossos sorrisos a cada pulinho para passar uma onda
Pulinho de se deliciar e de alegria sim
Até o sol deu uma maneirada para a atenção ser toda do calmo mar

Meu translúcido mar
Meu translúcido ser
Eu e ele tão transparentes
Eu e ele inconstantes

Dias de calmaria
De vida suave
Dias de fúria
De bravo mar

Eu e ele
Nos refazemos
Todo tempo
Eu e meu translúcido mar

Sobre um banho de mar e de amor em 02/12/2018.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Resultado de imagem para amor

O poema mais lindo que já li. Por isso abro espaço para ele aqui, mesmo o maior objetivo desse blog sendo publicar meus alfarrábios autorais. Compartilho com muito amor.

RECONHECIMENTO DO AMOR
Carlos Drummond de Andrade
Do livro é Amando que se Aprende a Amar

Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não queiras a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez - sem o perceber, juro -
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido
na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.

Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.

Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.

Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.

sábado, 10 de novembro de 2018


Mude, mas comece devagar
Já dirijo com calma
Prefiro apreciar o caminho
Lampejos de ideias me surgem vez em quando
Caminho pouco sozinha

Venho pensando sobre a vida
Segui firme nas escolhas
Quando deixei o ninho
Uma hora fica tão apertado que sufoca
Faltava espaço para ser eu mesma

E a gente cansa de querer agradar todo mundo
Da tanto trabalho
Acho que gastei tanta energia pra isso que faltou para o ainda necessário

Felizmente consegui enxergar que dentro andou tudo tão bagunçado
Tão escondido que nem sabia que podia ser consertado
Será que dá, hein?

Eu me cobro dentro da mente
E pouco faço pra responder às cobranças internas
Aí cobro mais
Sofro comigo mesma porque me teimo

Tanta oscilação nessa vida
Ora quero ser gato
Ora passarinho
Ora coruja
Ora uma cobrinha
Achava que eu era tão leve
Tão relax
Tão gente boa
E eu era mesmo
Sempre fui boa demais com todo mundo
Menos comigo

Aprendi um dia desses que eu sou a pessoa mais importante da minha vida
Precisei que outra pessoa me dissesse isso
Meu Deus!

Iniciei uma jornada intensa
Não tem sido fácil lidar com os entulhos que achei sob os escombros
Mas tenho seguido
Ora firme
Ora não

Procurando energia 
Pra recomeçar todo dia
Porque desisto quase todo dia
E insisto no outro

Desisto de ser boa
De ser má
De ser livre
De reclamar
De agir
De desistir
E vou agora, de novo, recomeçar.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


Afagas o meu cabelo e teu carinho toca minha alma
Tuas mãos quentes
Intensificam teu toque
Teu olhar calmo
Teu amor mais quieto
e Desconfiado se esconde num passado De dias recentes

Indefeso, fui atingido pelo teu meio cuidado
Fez trepidar a torre de amor que construía em tempos rápidos
Como quem lembra que se deve fortalecer o alicerce

Reflito eu sobre o que guardando, cuido
Com anseios de chegar ao topo
Refazendo elos
Tecendo fios entre mim e ti
Daqueles que se entrelaçam suavemente
E formam um emaranhado de beleza
Onde não se distingue início nem fim


Recomeçar. Limpar a casa primeiro. A alma por derradeiro.
Que as dúvidas saiam para dar lugar às benesses que o novo gentilmente nos traz. 
Que se abra espaço para enxergar o que há do lado de dentro.
Que enxergando, seja possível entender.
Que a compreensão cultive crescimento.
Que o crescer conduza ao amadurecimento.
Que a sabedoria brote do olhar curioso e criterioso.
Que os anjos se prostrem ao redor e protejam a alma, o agir, o amar.
Que renascendo juntos possamos nos reinventar.
Que nos bastemos!




Nenhum tempo separa o que se ama
Nenhum tempo apaga o que se deseja
Ou faz feliz
Ou traz à memória
As conversas de um passado recente
De sorrisos, amores e diferentes anseios
Anseios que se completavam
Que se confundiam
Que se afagavam

Tardes de amor
De pequena ansiedade 
De se ter todo dia com os amores

Os amores que se alegravam
Que se alegram
Que se sorriem
Que se musicam
Que se podavam
Que se construíam

Amores de um
De dois
De três
De mais
De nós

De admiração, cuidado
De crítica
De gentilezas
De certezas de amor
De diferenças

Distantes e disjuntos
Internos e eternos
Longe da vista e tão perto do coração

Meus amigos, minhas paixões
Que quando me chamam
Sempre quero sim
Mesmo dizendo não!!!

O barulho do tempo me acordou
Do sonho perturbador
E o silêncio das gentes
Foi interrompido pela
Chuva intensa que vem regar nossa vida.

E no meio da noite
Me comunico com
Os iguais
Que amam como eu
Que sofrem como eu
Que são felizes como eu

E me afagam com doces palavras
Que me envaidece
Que me envolvem

E o tempo vai modestamente
Se calando
Para que possamos
Nos ouvir

Quem está em mim?

Não se define. Se sabe.
Corpo. Pele. Alma.
Um ou outro. Tudo ou nada.
Apenas olha e sente.
Assim do nada.
E se move depressa.
Às vezes pára.
E quando desperta,
Só se alastra.
E pede.
Sustenta.
Sofre.
Se acaba.
Renasce. 
Revive.
Realça.
Anuncia.
E lança no mundo semente.
Rega, semeia e colhe o fruto que acalma.